Viticultura
Do rio para o campo – Em busca das vinhas perdidas
«O Zêzere parece um mar tranquilo, ali para os lados da albufeira do Castelo de Bode. E é à beira rio que se descansa dos trabalhos da vinha. Numa zona onde os produtores de referência não abundam, os vinhos Encosta do Sobral aí estão a dizer-nos que há que contar com eles.
(...) Um passeio pelas terras e aldeias que por ali abundam leva-nos a um outro Portugal: o dos povoados desertos, onde apenas habitam velhos lavradores, hoje a viver dos últimos dias que lhes restam na pacatez do campo, com o ar dos pinheiros e o barulho dos eucaliptos (os poucos que ainda restam, dada a ferocidade dos fogos anuais) por companheiros quotidianos.
Ali, nas aldeias da Serra e Junceira, outrora havia vinha. Quase sempre para fazer o vinho caseiro, o tal que albergava "tudo o que havia no quintal", desde brancas a tintas, uva americana e de mesa. E usavam-se os velhos tonéis para fermentar os vinhos que depois eram engarrafados directamente da pipa (...).
É à beira da estrada que liga Tomar à freguesia da Serra que se situa a adega da Encosta do Sobral. Bem integrada na paisagem, ninguém dá por ela, caso não saiba que é ali que Carlos Sereno, engenheiro de formação, apaixonado por cavalos, antiguidades e viciado na caça, resolveu, em terras de antepassados, fazer o pólo de vinificação dos seus 80ha de vinha, criados de raiz, no meio de pinheiros e em terras de xisto.(...) Carlos Sereno, o produtor, está satisfeito com os resultados e com o facto dos filhos estarem já inseridos no negócio. A exportação já começou e os prémios também. O que quer dizer que a região pode estar a desertificar mas não é seguramente por falta de potencial. Para as uvas e, com confirmação histórica, para a azeitona. E o homem da Encosta do Sobral já está a pensar em dar nova vida às suas meninas galegas. Será que é desta que reabre um lagar na região?»
Revista de Vinhos, João Paulo Martins, Novembro de 2006, páginas 38 a 41